O audiovisual como ferramenta de educação

Vivemos em uma época em que crianças e adolescentes estão cada vez mais imersos no universo digital. Celulares, computadores, televisores e videogames fazem parte do cotidiano — e, muitas vezes, desde a primeira infância. Essa realidade tem gerado debates importantes sobre os impactos do uso excessivo de telas, especialmente quando esse uso se dá sem supervisão adequada.

A Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP), por exemplo, recomenda que crianças menores de dois anos não tenham contato com telas, e que, entre dois e cinco anos, o tempo seja limitado a no máximo uma hora por dia, sempre com acompanhamento de um adulto. A exposição precoce e desregulada pode trazer sérias consequências para o desenvolvimento cognitivo, emocional e social das crianças.

Ao mesmo tempo, vivemos em um país onde o acesso à educação de qualidade ainda é desigual, e onde a regulação das grandes plataformas digitais — as chamadas big techs — é frágil ou inexistente. Em meio a esse cenário, muitos jovens acabam navegando sozinhos por redes sociais, consumindo conteúdos nem sempre adequados à sua faixa etária. Um exemplo recente foi o vídeo do youtuber Felca, que viralizou ao abordar de maneira crítica a adultização precoce de crianças e os riscos da exposição a conteúdos inadequados nas redes.

Entre o risco e a potência: o audiovisual na educação

Apesar dos riscos, é preciso reconhecer que as tecnologias e as linguagens digitais também oferecem oportunidades. Se, como defende Paulo Freire, “a leitura do mundo precede a leitura da palavra”, então a missão de educar crianças e adolescentes deve incluir a mediação crítica do mundo digital em que estão inseridos. Isso significa não apenas restringir ou controlar o uso das tecnologias, mas também usá-las como ferramentas de expressão, criação e aprendizagem.

Nesse sentido, o audiovisual pode se tornar uma ferramenta pedagógica potente. Em minha atuação como educador no CCA Coração Materno, tenho acompanhado de perto como crianças e adolescentes respondem de forma entusiasmada quando são convidados a criar. Com alguns recursos conseguimos desenvolver projetos que vão além da simples técnica: envolvem cooperação, escuta, organização e criatividade.

Os temas das produções surgem das próprias crianças: histórias de amizade, conflitos escolares, filmes de terror, vídeos engraçados. São temas diversos, mas sempre conectados à realidade e ao universo simbólico de quem os cria. E é justamente aí que mora a força do audiovisual na educação: ele permite que os estudantes sejam autores de suas narrativas, que se reconheçam como sujeitos ativos e criativos, capazes de imaginar e transformar o mundo à sua volta.

Conclusão: mais do que técnica, escuta e sentido

O audiovisual, por si só, não é solução mágica para os desafios da educação. Mas, quando articulado a uma prática pedagógica que valoriza a escuta, o afeto e a participação ativa das crianças, torna-se uma ferramenta poderosa de formação. É uma linguagem que dialoga com o tempo presente, com as práticas culturais das novas gerações, e que pode — se bem orientada — ajudar a construir sentido, pertencimento e criticidade.

Ao oferecer espaços onde elas possam criar, refletir e se ver representadas, mostramos que suas histórias importam — mesmo (ou principalmente) quando passam pela invenção, pela fabulação e pela brincadeira. Porque, afinal, é por meio da brincadeira, da imaginação e da criação que também se aprende a viver.

Thiago Cervan é realizador audiovisual, educador popular e agente cultural na Oficina Cambará, localizada em Atibaia/SP.

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